Em 2023, as plataformas de reserva online (as chamadas OTAs) ficaram com 29,6% das dormidas dos hotéis europeus. Dez anos antes eram 19,7%. No mesmo período, a reserva direta desceu de 57,6% para 50,9%. Os números vêm do estudo de distribuição hoteleira do HOTREC, feito com respostas de 3 089 hotéis, e mostram uma mudança lenta mas constante.
Os números de 2013 e 2023
O HOTREC, a associação europeia de hotelaria, faz este estudo com a escola suíça HES-SO Valais. Pergunta aos hotéis por onde chegam as dormidas: telefone, email, balcão, site próprio, plataformas, agências, operadores. A edição de 2024, com dados de 2023, dá este retrato:
| Canal | 2013 | 2023 |
|---|---|---|
| Reserva direta (telefone, email, formulário, motor no site, balcão) | 57,6% | 50,9% |
| Dentro da direta: motor de reservas no site do hotel | 7,4% | 12,3% |
| Dentro da direta: restantes canais (contas nossas) | 50,2% | 38,6% |
| Plataformas online (OTAs) | 19,7% | 29,6% |
Há aqui duas leituras. A primeira é a que toda a gente conhece: as plataformas cresceram e a reserva direta perdeu terreno. A segunda passa mais despercebida. Dentro da reserva direta, o motor de reservas no próprio site quase duplicou, de 7,4% para 12,3% das dormidas.
Ou seja, o hóspede que reserva direto continua a existir, mas cada vez mais faz isso sozinho, no site, sem telefonar nem escrever. Em 2023, os canais online no seu conjunto já trouxeram 45,1% das dormidas.
Quem fica com a fatia das plataformas
Dizer «plataformas» é quase dizer uma empresa. Segundo o mesmo estudo, a Booking Holdings ficou com 71% do mercado das OTAs nos hotéis europeus em 2023 e a Expedia com 14,4%. Juntas, passam dos 85%.
Isto pesa nas contas porque a comissão da Booking.com não é uma taxa fixa e pública. A página para parceiros diz que depende do país, do tipo de alojamento e do contrato. Programas como Preferred Partner ou Visibility Booster somam uma percentagem extra à comissão base. E a própria Booking.com explica que o valor da comissão paga é um dos fatores que influenciam a ordem dos resultados.
Na prática, quem quer aparecer mais acima tende a pagar mais. Por isso não damos aqui uma percentagem «típica»: o número certo para o seu hotel está no seu contrato e nas suas faturas.
O comunicado do HOTREC aponta ainda outro problema: em 4 de cada 10 hotéis, as plataformas chegam a vender o quarto mais barato do que o próprio hotel. Quando isso acontece, o hóspede que compara preços tem um motivo para não reservar direto.
Nos hotéis pequenos a dependência é maior
O estudo separa os hotéis com menos de 20 quartos. Entre eles, 27% recebem entre 30% e 49% das reservas por plataformas, e outros 27% recebem mais de metade. Somando, mais de metade dos hotéis pequenos depende das OTAs para pelo menos 30% das reservas.
Faz sentido. Um hotel com 12 quartos não tem equipa de marketing nem orçamento para anúncios. A plataforma resolve a visibilidade, mas cobra por cada reserva, incluindo a do hóspede que já lá esteve e volta no ano seguinte.
Em Portugal o quadro é ainda mais marcado. Segundo o Eurostat, 81,6% das empresas de alojamento portuguesas com 10 ou mais pessoas vendem pela web através de plataformas, contra 65,9% na média da UE. Explicamos esses números em alojamento português e plataformas.
Quer saber se o seu site ajuda ou atrapalha a reserva direta? Peça a análise gratuita do seu site.
Falar no WhatsAppPreço igual em todo o lado? O que mudou na lei
Durante anos, muitos contratos com plataformas incluíam cláusulas de paridade: o hotel não podia vender mais barato no seu site do que na plataforma. Em setembro de 2024, o Tribunal de Justiça da UE decidiu, no processo C-264/23, que as cláusulas de paridade da Booking.com, largas ou estreitas, não podem em princípio ser tratadas como «restrições acessórias».
Em 2025, a APHORT juntou-se à ação coletiva europeia contra a Booking.com. Segundo a notícia da ECO, os hotéis podem reclamar parte das comissões pagas entre 2004 e 2024. Se o seu hotel pode entrar nesta ação, a resposta está na associação, não neste artigo.
E os sites dos hotéis portugueses?
Na verificação FINEWEB de outubro de 2026, analisámos a página inicial de 1 329 sites de hotéis registados no RNET. Em 91,5% encontrámos uma referência a reservas ou uma ferramenta de reserva. A intenção existe.
O que falta é o resto do caminho. Só 24,5% mostram preços ou valores «desde» na página inicial, e só 10,5% têm um botão de WhatsApp. Um hóspede que chega ao site depois de ver o hotel na plataforma precisa de perceber depressa se compensa reservar ali. Os números completos estão no estudo dos sites de hotéis.
O que fazer
- Conte os seus números. Some as reservas do último ano por canal e o que pagou de comissão. Sem isto não sabe quanto vale uma reserva direta a mais.
- Leia o seu contrato com a plataforma. Veja a comissão base, os programas extra em que entrou e se tem alguma cláusula de preço.
- Ponha a reserva à vista no seu site. Botão de reservar no topo, preço «desde» visível, datas e disponibilidade em poucos toques no telemóvel.
- Dê uma razão para reservar direto. Pequeno-almoço incluído, saída mais tarde ou uma condição de cancelamento melhor. Algo que a plataforma não mostra.
- Fale com quem já ficou. Peça o contacto, envie uma mensagem na época baixa e indique o site para a próxima reserva.
- Defina uma meta modesta. Por exemplo, mais cinco pontos de reserva direta num ano. Se quiser ajuda com o site, veja sites para hotéis.
